segunda-feira, 3 de abril de 2017

O violoncelo


Era uma música
Em tom menor, enormemente compassada 
Rolava, em minha consciência, suavemente
Ora doce, ora muito pesada
Análogo a uma pessoa caminhando vagarosamente
dando largos passos num caminho enevoado
desviando aqui e ali de trevos
e do chão empoçado
Sua intensidade era agradável
Os graves imponentes
Os médios envolventes 
e os agudos instigantes
Era um instrumento só
Algo, ou alguém fazendo uma apresentação
Um anjo solista, ou o mal em auto compaixão?
Seu timbre era capaz de elevar
Tirar alguém do solo, literalmente
Apesar dos imponentes graves, a melodia era leve
Transformava tudo num cenário normal
Apesar da paisagem cinza, inerte
a natureza, o clima, tudo era frugal
Um majestoso instrumento
As cordas vibravam
O arco por elas passava
A cada movimento
meu submetido pensamento 
na neblina se mesclava
Sua caixa acústica recitava notas solenes
Meus olhos marejavam lágrimas perenes
Um dia que nunca tive
Uma caminho que nunca percorri
Uma música que nunca ouvi
Mas que sei que existem
E que meu coração persiste
Segue, sonha, luta para alcançar
E se apraz, como neste momento
Em apenas nisto meditar

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