domingo, 31 de agosto de 2014

O fantasma da opera


Solitária, com sua voz sutil
Distribui imponência, beleza e alegria
Citando suntuosas palavras
À sua valsa, Deus reverencia

Na orquestra, tamanha inspiração
A soprano entoa melodias enervantes
Faz-nos prender a respiração
Sentimos os versos mais emocionantes

Seu amor aproveita o ensejo
E navega no cantar oriundo da alma
repleto de paixão, ardor, desejo
Traz-nos regalo, excitação e calma

As estrelas cintilam ao anoitecer
No céu a aurora anuncia aos anjos
Uma melodia que se deve reviver
Mesmo após milhares, e milhares de anos

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Silencio?


O silencio que leva e traz,
O gosto do desgosto profundo.
Em saber que todo mundo,
Quer o mundo,
Para si em um segundo.

O século que leva e traz,
O ódio e a paz,
O prazer e a solidão.

Nesse silêncio apraz,
Qual me deixa em pedaços,
Que se espalham pelo chão.

Igualmente estou,
Àquele carente da razão,
Que se calou,
Diante do terror,
Que se deparou,
E que ancorou em seu coração.

Mas quero eu, quero sim!
O mundo só para mim.
Em verde amarelo azul e branco,
E perfumado de jasmim.

Nos campos lindos,
À terra, onde jaz a compaixão.
Farei daqui meu tenro jardim,
Somente para mim,
Livre de toda incompreensão.

Uma festa, da solidão criarei.
O melhor de meu dia, da melancolia, 
Dos pesadelos, a falsa alegria,
De mim arrebatarei.

Silencioso, ocioso, a era do eu.
Dentro da mais completa ilusão,
O mundo, isso pode nos dar,
Desde o feto, a um velho ancião.

Impulso para caminhar.
Inspiração para pensar.
Vontade para sorrir.
Tristeza para chorar
.

Oh! Mundo meu,
Queria eu,
Que fosses belo,
Incomplexo e ateu.

Tão perfeito como o efeito,
Que, calha, extravagantemente, 
Em uma pequena borboleta,
Encontrada entre o mármore e a marreta,
Onde a bruta força habita,

No fim de uma batalha.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Quando a chuva cai

Cinza, prata, cinza,
Chuva que cai do céu, seja bem-vinda!
Dando frutos, dando vida.

Quando tu cais no vasto verde

O reflexivo espelho se forma
E nele teu rosto se perde
Em meio ao tom cinzento
Não de sofrimento
Mas de crescimento
Da esperança da fartura e fertilidade

Se me molho todo
É porque em ti, temporal,
Eu me aprazo e me debulho em felicidade
Elevo minha moral
Retiro todo o mal
Lavo meu corpo, minha alma
Fico farto, fico limpo

Debaixo da amendoeira,
Que ampara-me das doideiras
Onde tu escorres
Como uma menina choradeira
Encantada com a esperança
De ser amada, apreciada, tocada
No ponto fundo, mais profundo do coração

Luz que irradia, dissipa toda essa rebeldia
Que de noite e de dia
Fazendo chover
Molha toda a via
Ruas e caminhos

Não é o dilúvio
Que comete o óbito
Eis o homem que não respeita, óbvio
Que se sujeita a enfrentar-te

Oh! orvalho intenso, infinito
O tudo sem início, o nada sem fim
Faz de mim o ser amado
Lavado, renovado, purificado.
Em todo esplendor

Sem dor, sem rancor
Sem raiva, sem amargura
Todavia, com muito amor

Gota majestosa, que tanto bate quanto fura
Livrar-me-á de todo o mal
Jura, jura, jura com ternura
Repleta de doçura

Pois sou filho seu,
Eu, você, somos criação
Somos unos.
Eu sou você, você sou eu!

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

No que você está pensando?

No que eu estou pensando? Estou pensando no quanto é fácil destruir, acabar; derrubar um muro é mais fácil que construí-lo; criticar é mais fácil do que apoiar, muito menos elogiar. Logo, é mais fácil nos afinizarmos com o ódio, do que ao amor. Até mesmo um gesto de carinho, é difícil. é penoso. 

O sentimento puro, belo e perfeito é raro, pois criá-lo é trabalhoso. Cansativo, desestimulante, leva tempo e é inútil.

Uma vez meu querido pai me falou isso: "Não se colhe uma linda e perfumada rosa sem deixar seu sangue no espinho." Eu hoje posso colher bons frutos dessa semente deixada por ele e digo mais, em relação ao mundo que se apresenta hoje, conforme o senso comum conforme disse acima: "Furar-se é doloroso, sangrar é pior ainda. Não! Melhor eu não criar, não colher nada. É mais simples eu extinguir". Não estou contrariando-o, mas sim analisando o que ele me ensinou, prevendo, ele, o futuro que eu teria pela frente e me alertando como um professor da vida.

Isso tudo eu já enxerguei nessa vida; tudo o que senti e tive até vontade de fazer também, pois já passei por esta experiência, que é: destruir (É fácil demais realmente), criticar, não ajudar, ficar omisso, inerte. Hoje faço valer as singelas palavras de meu pai. Hoje sei o quanto elas valem. Sangrar por algo que valha a pena, (essa analogia) é realmente o caminho. Repetindo o que ele disse: "Não se colhe uma linda e perfumada rosa sem deixar seu sangue no espinho". 

Aprendi o seguinte: Que tudo isso vale a pena, tudo isso é compensatório e é o que devemos buscar realmente. Pois o sangue é o nosso esforço, o espinho é o tropeço, faz parte das dificuldades no caminho e a rosa é o amor, a construção de tudo o que há de maravilhoso neste mundo; ou os "frutos" de um trabalho esforçado. 

Vale a pena! Vale cada gota de sangue e suor para construirmos, para elevarmo-nos, para amarmo-nos; vale cada momento, cada empenho, cada lágrima; vale a luta, a batalha... Pois no fim de tudo isso seremos recompensados com a perfeição, pureza, com a sutileza de uma rosa, em tons das cores da vida, da paz e do amor.

sábado, 23 de agosto de 2014

Sei lá, Cartola.


Hoje eu tive um sonho louco, como sempre. Eu estava caminhando pela rua, uma rua conhecida, já até passei por ela. Frequentemente por sinal. Muitos a conhecem: Rua Visconde de Niterói - Mangueira, Rio de Janeiro. E, voltando ao sonho, certa hora passei por uma esquina, que tinha uma ladeira que subia pro morro. Mais acima, nesta ladeira, vejo um grupo de pessoas sentadas em cadeiras ocupando parte da rua, frente a uma birosca. Todos vestidos com certa simplicidade, bebendo suas cervejas, comendo seus aperitivos, bem coisa de bamba mesmo. O traje não era moderno como nos dias de hoje. A julgar suas vestimentas era tipo anos 70. Até os veículos que ora passavam na "Visconte de Niterói", eram bem antigos.

Assim subi a rua e fui chegando, na moral, no botequinho, como quem não quer nada... Ou melhor, como quem quer uma cerveja e parar com o pessoal da música. Era uma muvucada das boas. Geral sambando, batucando, cantando, enfim muito samba.

Uma senhora pediu que eu me sentasse, que chegasse mais, junto à mesa deles. Então deixei minha garrafa na em sua mesa, timidamente cumprimentei a todos e tome samba, cerveja, tira-gosto, etc. Daí esta senhora vira e me fala: "Você é do rock não é menino? Tuas músicas são boas, vocês são bons. Mas os dessas época agora, porque os que virão por ai não serão de nada. Lixo musical, em comoaração ao que temos hoje. Não só a rock não moço". Eu, acanhado, sorri e afirmei sim gostar do rock, do blues, etc e que eu estava muito interessado em ouvir o que eles cantavam, o que vinha do morro. Ela sorriu e comentou: "Você veio de coração aberto, eu reconheço isso. Isso é muito bonito e importante pra você".

Prosa vai, prosa vem, e naquele zum-zum-zum não pude ouvir ela chamando uma pessoa. No meio do povo, entre alguns instrumentistas e cantores, um senhor, óculos escuros, cabelos grisalhos, corte bem baixo, acena para a senhora e mostra um belo sorriso. Eu não o reconheci aquela distância, mas ele veio caminhando em direção a nossa mesa, e então pude ver melhor quem ele era. Ele chega e em seguida se abaixa para ouvir o que a mulher que me convidou estava falando. Depois de falar com ela, este homem olha pra mim, sorri e estende sua mão para me cumprimentar. Eu me levantei, e num gesto quase de louvação, eu lhe apertei as mãos e sorri de volta.

"Meu nome é Silvio, é uma imensa satisfação e inigualável honra, senhor..." Este senhor é ninguém menos que Cartola. Agenor de Oliveira, o divino poeta das rosas. Simples, simpático, humilde e muito receptivo. Ele me convidou a se juntar ao grupo que estava tocando, mas recusei geladamente, horrivelmente introvertido, pasmem, mas maravilhado. Ele me deixou a vontade, e se retirou.

Depois disso parece que minha visão clareou, e apesar de não serem quase da mesma época, eu pude identificar outros "semi-deuses" da música popular brasileira: Heitor Villa-Lobos, Pixinguinha, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Baden Powell, Noel Rosa, Natalino e Paulo da Portela, Zé Keti, Carlos Cachaça, João Nogueira... Nossa, muito louco! Geral tocando, cantando samba, numa rua subindo o morro da Mangueira.
(É tipo aquele video-game que você pode armar uma seleção com jogadores atuais com os antigos. Pelé, Romário, Falcão, Gerson, Fred, Zagalo, Garrincha, Neymar, Zico, Obina, Junior Baiano, Tafarel... Sonhos são muito "nóia". Realmente sem noção. Claro, desconsiderem Junior Baiano, Fred e Obina! Por favor.)

E voltando a mesa, lotada de cerveja, a mulher (que desconheço, infelizmente. Seria Dona Zica?) virou para mim e falou: "Esse é o homem. Ele é isso ai que você está vendo. Simples. Ninguém dá nada por ele, quem o vê assim. Mas suas palavras, qualquer frase, qualquer sílaba é composição, simplesmente ele exala poesia". Eu só concordava, tenso. Nada falava, eu só ouvia. Ouvia aquele "tum-tum", "telecoteco", "tacaticata" e tome cerveja. 

Até que a senhora me deu um instrumento e pediu pra eu levar o samba junto com eles, segundo ela eu sabia tocar aquilo sim, mesmo eu nunca tendo segurado o troço. Me parecia um agogô de dois sinos. Eu fiquei entusiasmado, levei a parada na boa e quando vi já estava na roda. (haha mó louco).

Voltei para pagar minha cerveja e me retirar daquele astral maravilhoso. Só que a mulher solta mais uma: "Filho, bom te ver; quero você mais vezes aqui; traga seus amigos, esteja em casa. Mas atenção! Não dê ouvidos a qualquer coisa. Siga a tua intuição musical. Respeite o que não lhe agrada... É... Tente, ao  menos. Por que a música do teu tempo é equivalente a um estupro - falou muito sério ela - vá com Deus meu filho..."

Então ela tem razão. A musicalidade de hoje é isso ai. Somos estuprados diariamente. As vezes sem nos darmos conta. Desculpem-me aos demais gêneros musicais, desculpem-me músicos, compositores, mas... Ta osso duro de roer. É um estuprando o outro ai no dia-dia, tá uma descaralhada completa e desordenada a musica em si NESSE MUNDO. Enfim...



As vezes sonho com celebridades como se fosse íntimo deles. Tipo, Renato Russo, Nietzsche, Einstein, Diana Krall, Zico, Amy Winehouse... A sensação é ótima depois que acordamos de sonhos assim, mas é muito confuso, muito louco.


Ah... Salve o mestre Cartola! Salve a velha e boa música popular brasileira.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A malandragem do samba


Ontem, no ensaio, tocando caixa, fiz um pergunta ao mestre, (Junior Sampaio), sobre a levada da caixa "em baixo", pois eu estava conseguindo tirar um som, na batida, que muitos tiram com a caixa tocada no "alto" (como na imagem).

Realmente tira-se o som do instrumento sem precisar levantá-lo, comprovada pelo mestre. Mas surpreendentemente, a resposta não foi da técnica e sim da história haha.

Sensacional!

Segundo o mestre, ele leu em algum livro de carnaval e suas histórias, que os "caixeiros" da época tocavam no "alto" para esconderem o rosto. Incrível!

Realmente todos nós sabemos da perseguição para com o pessoal do samba, das favelas, dos morros, das religiões afro (A religião foi fundamental, pois muitos ogãs de terreiros e barracões, saim da responsabilidade religiosa e partiam para a folia, contribuindo com suas habilidades na percussão). Estas pessoas foram duramente perseguidas como vermes!!! Triste! GRANDE, BRILHANTE época da ditadura e preconceitos por parte da aristocracia, enfim... Sem contar também, claro, acho que o fator maior, é a de alguns foras da lei que se misturavam na muvuca para levar seu ritmo.

Não foge a regra: a caixa é um dos maiores naipes numa bateria; a mais embolada ali na "cozinha" junto com outros instrumentos, sendo difícil identificar cada folião... Enfim, é história que tem muito a ver e que é muito bom ser lembrada. 

Nas próprias escolas de samba e nos blocos carnavalescos, que tomavam conta da cidade na época, por exemplo, a galera do "Cacique de Ramos", "Bafo da Onça", "Bola Preta", "Vai Como Pode", "Estação Primeira", "Deixa Falar", "Vai se Quiser" e o "Bloco dos Sujos" (Hoje o Arranco do Engenho de Dentro), sofriam muita perseguição e opressão dos militares e da alta sociedade. É muita história!!!

Hoje em dia não precisa levar a caixa escondendo o rosto porque ninguém é perseguido por nenhum ditador doente ou algum burguês preconceituoso. (Ou não?)

A levada na caixa, desta forma, no "alto", naquela época, onde muitos eram perseguidos apenas por serem músicos, ou negros, e também, foras da lei, realmente tem um nome: MALANDRAGEM.

Ela, a flor

"É teu, o jeito mais delicado
graciosidade vais distribuindo
do corpo mais deslumbrado
exerce um calor que vai me consumindo

onde quer que vais
onde quer que olhes
deixas corações acelerados demais
tu despertas o melhor de todos prazeres

de flores, o jardim a se enfeitar
o aroma no ar esvaecia
em você eu contemplei o desabrochar
da mais bela flor do dia


igualmente, em você havia um brilho
como raio solar emanado em meio ao paraíso

não era feitiço de um mago maltrapilho
era simplesmente o encantamento que vinha do teu sorriso"


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Não estamos sozinhos


87. Os Espíritos ocupam uma região circunscrita e determinada no espaço?
R: Os Espíritos estão por toda parte; povoam ao infinito os espaços infinitos. Há os que estão sem cessar ao vosso lado, observando-vos e atuando sobre vós, sem o saberdes: porque os Espíritos são uma das forças da Natureza, e os instrumentos de que Deus se serve para o cumprimento de seus desígnios providenciais: mas nem todos vão a toda parte, porque há regiões interditas aos menos avançados.
(O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO 2, CAP. 1 - MUNDO NORMAL PRIMITIVO)


16 E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre;
17 O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.
18 Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós.
(A BÍBLIA - JOÃO 14:16-18)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Preto e Branco



Talvez eu não deva alcançar 
Já percorri os extremos 
Cansei-me de tentar buscar 
O amor que prometemos 

Vejo um vasto campo florido 
Sem cor, sem aroma, obscuro 
É de deixar o coração partido 
Em saber que ali não haverá futuro 

O tempo segue junto ao amor 
Sem eles não estaríamos vivos 
Ainda que haja uma pétala na flor 
Os caminhos não estarão perdidos

O poder das ervas




"Kó si ewé, kó sí Òrìsà", ou seja, "sem folhas não há orixá". Elas são imprescindíveis aos rituais do Candomblé. Cada orixá possui suas próprias folhas. Mas só Ossain conhece os seus segredos, só ele sabe as palavras que despertam o seu poder, a sua força.

Ossain desempenha uma função fundamental no Candomblé, visto que sem folhas, sem a sua presença, nenhuma cerimônia pode realizar-se, pois ele detém o axé que desperta o poder do "sangue" verde das folhas.

Ossain é o grande sacerdote das folhas, grande feiticeiro, que por meio das folhas pode realizar curas e milagres, pode trazer progresso e riqueza, tanto material quanto espiritual. E é nas folhas que está à cura para todas as doenças, do corpo ou do espírito. 

Por que eu estou falando deste orixá? Não é nenhum dia para cultuá-lo especificamente, nem possui nenhum sincretismo com algum santo católico nesta data, nem nada próximo (não que eu saiba).

É que hoje acordei com uma melodia em mente. Nada que pudesse comparar a outro compositor, ou que eu tivesse ouvido este conjunto de acordes, essa melodia em algum lugar... Não! Simplesmente acordei com algo parecido com tom em lá maior seguido de outros acordes afins... E uma voz, bem suave, baixinha acompanhando "Euô, Eeeeuô". Como me lembrou a saudação à "Ossanha" eu fiz algo com "Eweô" que em Iorubá, quer dizer: Oh, as folhas!

E ficou assim uns humildes e simples versos:


Ewe Ô, Ewe Ô, Ewe Ô, Ewe Ô 

Da natureza vem
o rico aroma de sua flor
e a magia, muito além
Vem do verde o seu amor

Ebi, Tola, Olobomi, Dilá
Guarda segredos das ervas sagradas
Bem feitor, possui a arte de curar
Seu rastro possui uma só pegada

Oh rei das ervas
Cure-nos, com fartura e ardor
Tire nossas moléstias, feridas
Livre-nos de toda dor

Ewe Ô, Ewe Ô, Ewe Ô, Ewe Ô 

Prepare nosso banho 
Purifique nossa alma 
Traga o melhor dos sonhos 
Eweô Ossanha 

Oiá soprou, a cabaça voou
Enfim se revelou
O segredo das ervas
Ossanha, aos Deuses compartilhou

Oh rei das folhas
Com tua pureza 
livrai-nos das trevas 
Com teu encanto e beleza, Ewe Ô

Ewe Ô, Ewe Ô, Ewe Ô, Ewe Ô

Dia 16 de Agosto, dia de São Roque.




Dia dezesseis de agosto, foi dia de São Roque. Um santo católico, padroeiro dos inválidos e cirurgiões; protetor dos fieis contra as pestes e doenças do gênero. Devido à intercessão contra a peste, varíola, é o santo de múltiplas comunidades em todo o mundo católico e padroeiro de diversas profissões ligadas à medicina, ao tratamento de animais também.

Mas neste dia 16/08 houve muita manifestação por parte dos seguidores das religiões afro, por causa do sincretismo religioso. E o que é sincretismo religioso?

Vou tentar ser breve e puxar um pouco da história que se passou na época dos escravos negros vindos da África.

Os negros africanos, assim como os romanos, os índios, os gregos, os orientais chineses, têm suas religiões, suas crenças e mitos. Pois bem... Lá na África, ou em províncias de Angola, Congo, Zâmbia, Guiné, o povo tinha sua religião. Eles cultuavam Deuses, ou podemos dizer arquétipos de fenômenos da natureza. São sentimentos, anseios humanos, como por exemplo amor, guerra, justiça, fartura, saúde, etc... Estes são os orixás. E eles têm um nome, têm histórias, lendas, etc. Assim como os Deuses Greco-Romanos. 

Uma vez que você é arrancado de seu país, sendo tirada de você toda sua cultura, religião, enfim, sua terra, seu chão, estes homens e mulheres africanos carregavam consigo somente sua sabedoria e com ela vinha sua linda religião. Isso, tentaram, mas não lhes arrancaram não. Os negros cultuavam seus Deuses, faziam suas liturgias, tinham seus fundamentos e dogmas. Mas os racistas, preconceituosos e "donos" destes negros, lhes impuseram e afirmaram que o culto e adoração a este tipo de coisa não iriam ser mais tolerados. Os negros, foram "convertidos", catequizados, e aceitaram sim sua nova religião, a linda religião Católica. Mas isso, o fizeram para se verem longe das amarras e dos chicotes. Sendo que na mente de casa um, de cada negro, a religião africana ainda pulsava forte. Pode-se aprisionar tudo e a todos, mas não se aprisiona a mente de alguém. 

Os negros sempre tiveram suas mentes livres e inteligentes que eram, e em suas senzalas, pregaram a seguinte norma: Cultuaremos sim os santos católicos, nada temos contra estes. Mas nossas mentes estarão voltadas para nossas nações, para nossos orixás e nossos costumes religiosos. E assim o fizeram. Para cada santo católico, que possuem também uma linda história, eles associaram aos "santos" africanos. E o que me surpreende é que tem tudo a ver essa associação, ou melhor, o sincretismo. 

A História de São Roque com Omulu, por exemplo. Nos terreiros de hoje, há histórias, e com certeza são verdades, dizem que o altar católico nos engenhos e senzalas, repletos de imagens dos santos católicos, claro, inclusive o Mestre dos Mestres, o Rei dos Reis, Jesus Cristo, eram feito com um pano longo, branco e em baixo desse pano, ou atrás do altar, estavam repletos de imagens de orixás, ou plantas, águas, pedras, ferros, significando a cada orixá. Isso acontecia para enganar os "sinhozinho", quando se adentrava em alguma senzala e deparava-se com um altar católico. Por exemplo o ferro lembrava Ogum (São Jorge). Justamente por este ser o senhor das batalhas, das guerras, dos caminhos... Sua arma é uma espada, ou uma lança, de ferro! Seu escudo, ferro! A água doce, já representa a mãe das águas doces dos rios e lagos, Oxum. Entre outros.

Mas vamos ao Canbomblé de hoje! Temos a louvação de um santo, ou orixá, que em iorubá se pronuncia Omulu. Tem-se também Obaluayê. Que muitos cultuam também neste dia. Um é bem jovem (Obaluayê), outro é mais idoso (Omulu). Reza a lenda africana, que Omulu ficou órfão de Nanã, que era sua mãe, e Iemanjá o acolheu em seus braços (como Iemanjá é o arquétipo da grande mãe, faz jus em adotá-lo), em seu lar e curou suas feridas. Omulu é órfão. E aprendeu com sua mãe, que lhe adotou, a cura para todos os males. Ele é tido como o senhor da terra. (Não Terra, planeta). E traz debaixo de suas vestes, que é a palha, o mistério da vida e da morte. Tanto o cemitério e o mar são tidos como cemitérios. Hoje sabemos do cemitério em terra, mas em mar, é coisa muito antiga onde os povos jogavam os corpos de seus entes queridos para que o mar os levassem para sempre.

Omulu era dotado de uma grande criatividade e timidez, foi o precursor da caridade, da humildade e do desapego material. curandeiro das chagas, varíolas, doenças de pele; dá a vida, mas também traz a morte, na triste hora que chega para qualquer ser. Foi um grande pensador que andava pelos reinos semeando a sabedoria. Médico dos pobres, senhor absoluto de todas as doenças de pele e infecciosas. Protetor dos desamparados, humildes, doentes e médicos.

Atotô em Iorubá, é uma saudação a este arquétipo de um velho idoso, sábio, significa "silêncio" em respeito a este senhor.

Este orixá traz como "comida", ou como fonte de energia a pipoca. Que é um simbolismo muito bonito e bem fundamentado. Como ele é o orixá da transformação (vida e morte/ morte e vida) e o fogo também representa bem esta questão, posso tirar uma breve história sobre a pipoca para Omulu. Muita gente a vê na "macumba", mas desconhece seu real significado.

O milho, que faz a pipoca é uma pequena "pedra amarela". É algo muito duro, rígido, inquebrável. Uma couraça que ninguém consegue partir, amolecer. (Como o coração de muita gente.) Então, só o fogo tem o poder de transformar. O milho, exposto ao fogo, se transforma em algo puro, limpo, mole, frágil e com uma forma que muita gente não percebe: uma flor! Uma flor branca sai daquela "pedra dura". A pipoca, ou o milho estourado, se você olhar bem, parece sim uma flor. Esta é a mais bela transformação que o ser humano pode realizar. 

Para outros fins e outras pessoas acreditam que a pipoca estourada parece-se, incrivelmente, com uma ferida exposta. As chagas, da qual o Omulu é portador. Ou melhor, sabe lidar. Por isso há o banho de pipoca e a mentalização para que o Senhor da terra, leve toda a doença.

Uns dizem que debaixo das palhas do Omulu se vê um homem cheio de marcas e feridas; outros dizem que é um ser tão lindo, mas tão lindo que ele usa as palhas para cobrir sua beleza e encanto evitando assim que todos por ele se apaixone loucamente. Enfim... São Roque, creio não ter tanta beleza exterior assim, mas sei que sua história é bem parecida com o Senhor da terra, Omulu. E vendo a incrível inteligência dos escravos, que adotaram São Roque (e também São Lázaro) para serem adorados, em imagem, mas suas mentes estavam voltados para o Omulu.

Vejamos então um pouco da história de São Roque: Ele ficou órfão de pai e mãe muito jovem. Estudou medicina na sua cidade natal, não concluindo os estudos. Levando desde muito cedo uma vida ascética e praticando a caridade para com os menos afortunados, ao atingir a maioridade, por volta dos 20 anos, resolveu distribuir todos os seus bens aos pobres [...] Depois de visitar Roma (período que alguns biógrafos situam de 1368 a 1371), onde rezava diariamente sobre o túmulo de São Pedro e onde também curou vítimas da peste, na viagem de volta para Montpellier, ao chegar a Piacenza, foi ele próprio contagiado pela doença, o que o impediu de prosseguir a sua obra de assistência.

Está ai o sincretismo religioso! Histórias parecidas, afins, entre o ocidente, a europa, e o continente africano entre homens e semi-deuses que estão aqui para nos fazer evoluir com suas energias e histórias.


atotô... psiii silêncio...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Hoje é dia Iemanjá, a Raínha do Mar.



Mãe, grande Mãe,
Acima do bem, acima do mal
Rainha do mar
Ingênua, serena e calma
Mas, quando se enfurece
Suas ondas vêm da alma 
Num espetáculo ímpar que ao chão estremece
Seus longos e esplendorosos cabelos crescem sem parar
Vaidade, encanto, sedução
Sereia, que a noite, em alto mar, canta a mais bela canção
Aos pescadores atrai-lhes a atenção
Leva-os ao fascínio e perdição
Em noite escura, apenas o luar e a mais completa solidão
Num lindo gesto materno
Ela os acolhe em seu seio
Dando lhes carinho e atenção
É o ser mais belo que Deus tem em sua criação
Dia 15 de agosto, dia de Iemanjá
Dia dos filhos, em um lindo gesto, lançarem flores no mar
E pedir sua proteção, para o mal nos afastar

Odoyá!


Iemanjá é um orixá feminino (divindade da mitologia africana) das religiões Candomblé. O seu nome tem origem nos termos do idioma Yorubá “Yèyé omo ejá”, que significam “Mãe cujos filhos são como peixes”. (Apesar de eu ser pisciano, não tem nada a ver o fato de eu ser "filho" de Iemanjá). Na religião Candomblé isso é descoberto com o tempo, com preparo, fundamentos, etc...

Mãe-d'água dos Iorubatanos no Daomé, de orixá fluvial africano passou a marítimo no Norte do Brasil.

No Brasil, a deusa Iemanjá recebe diferentes nomes, dentre eles: Dandalunda, Inaé, Ísis, Janaína, Marabô, Maria, Mucunã, Princesa de Aiocá, Princesa do Mar, Rainha do Mar, Sereia do Mar, etc.

Iemanjá é a padroeira dos pescadores. É ela quem decide o destino de todos aqueles que entram no mar.

No dia 2 de fevereiro acontece em Salvador, capital do Estado da Bahia, a maior festa popular dedicada a Iemanjá. Neste dia, milhares de pessoas trajadas de branco fazem uma procissão até ao templo de Iemanjá, localizado na praia do Rio Vermelho, onde deixam os presentes que vão encher os barcos que os levam para o mar.

No Rio de Janeiro as festas em honra de Iemanjá estão relacionadas com a passagem de ano.

Nos candomblés fiéis às origens africanas, o culto é prestado em locais fechados, nos atuais o culto é ao ar livre, prestado no mar e nas lagoas, sendo Iemanjá muitas vezes representada como sereia.

Os devotos levam para o mar vários presentes que são tidos como recusados quando não afundam ou quando são devolvidos à praia.

Dentre as diversas oferendas para a bela e vaidosa deusa, encontram-se flores, bijuterias, vidros de perfumes, sabonetes, espelhos e comidas. O ritual se repete em outras praias do Brasil.

As celebrações em homenagem a Iemanjá também acontecem em 15 de agosto, 8 de dezembro e 31 de dezembro.

No sincretismo religioso, Iemanjá corresponde a Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Piedade e Virgem Maria.

O Beijo de Prata


O Beijo é a máxima expressão,
Ato de pousar os lábios em teu rosto.
Vai além da minha imaginação.
Está acima de todos os gestos.

Tão magnífico quanto ao luar,
Que, puro e cintilante ao se por,
Toca sutilmente o negro mar,
Espaventando o coração deste autor.

Um Pequeno Surto

Eu e você neste mundo a sós
Encantado estou, por tua sedução
Ouço admirado tua doce voz
acalentar o meu pobre coração

O denso brilho dos olhos teus
Igualam-se a estrela da alvorada
És a mais perfeita obra de Deus
A mulher mais linda e iluminada


(Trecho retirado do livro "O amor sob a luz do oriente").