quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Que raios é Marxismo? Por M. Flaquer


Afinal o que é o Marxismo?

Para compreender o que é o marxismo, é primeiro preciso compreender o que é a dialética e o que é o materialismo.
Dialética é, filosoficamente falando, o movimento. O movimento da matéria (por exemplo o movimento do mundo, do universo, dos átomos), enfim, algo, qualquer coisa, só existe por conta do movimento. 
O que é então essa dialética? É a dúbia forma, de essência contraditória, com as quais as coisas se apresentam. Ou seja, significa que tudo o que existe possuí uma forma difusa, dupla, contraditória e uma essência que pode vir a ser igualmente dúbia/difusa ou contraditória. Como, por exemplo, a luz.

A luz é dúbia em forma, ela se apresenta como onda e como particula, ao mesmo tempo. E, em sua essência, podemos dizer que ela é o contrário da escuridão.

Darwin, considera os peixes de acordo com a dialética: alguns dos animais que viviam na água não eram peixes e alguns dos peixes tinham pernas, mas, na verdade, isso era somente a gênese de todos os animais como parte de um processo interconectado que explica a natureza de um peixe: Eles vieram de algo e estão evoluindo para outra coisa.
Darwin foi além da aparência do peixe para chegar à sua essência. Para o pensamento anterior não havia diferença entre a aparecia de uma coisa e sua essência, mas para a dialética a forma e o conteúdo de algo podem ser bastante contraditórios.

O materialismo é, entre outras coisas, a maneira com a qual as coisas se apresentam, ou seja, o materialismo é a corrente de pensamento que diz, ao contrário da corrente idealista, que primeiro existe a matéria e depois existe o pensamento.

Agora, com esses dois conceitos mais claros, podemos adentrar no campo do marxismo, mais específicamente do materialismo-histórico.

O materialismo-histórico é a maneira qual se analisa a história. Um bom exemplo de como se utiliza o materialismo-histórico a partir da analise da luta de classes.

A humanidade, desde o começo dos primeiros meios de produção, se organiza em classes. A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes.

"Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, burgueses de corporação e oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta."¹

Uma vez apontada a luta de classes e a dialética, devemos tratar de outros dois conceitos essenciais, a infraestrutura e a super-estrutura.

Para falar dos dois, coloquei uma imagem que melhor as exemplifica, mas em miúdos a infra estrutura é a maneira com a qual uma sociedade produz e de quem é a produção e o excedente de produção dessa sociedade. A super-estrutura, por sua vez é tudo aquilo que permeia a sociedade, ou seja, tudo aquilo que existe além da produção de uma sociedade, como, por exemplo a ideologia dominante.

Hoje, na verdade a mais de 180 anos, vivemos sob o capitalismo, digo isso no sentido de que hoje vivemos em um mundo onde, majoritariamente a propriedade é privada e a apropriação do excedente de trabalho se dá pelo capitalista, ou seja, pelo burguês. A sociedade, em geral, não absorve nada do excedente de trabalho da própria sociedade, quem absorve é o burguês. Então o burguês é quem determina como a sociedade vai se organizar, ou seja, o burguês implementa a sua própria ideologia.

Essa apropriação do produto social do trabalho se dá por conta da sua caracteristica privada dos meios de produção. Ou seja, o resultado da produção, o produto é algo de caracteristica social, é algo que, em essência, deveria pertencer a toda a sociedade. Porém as ferramentas, os meios para a produção desse produto são privadas. Isso ocasiona na expropriação do produto social pela burguesia, ou seja, naquilo que é chamado de "mais-valia".

Uma ideologia é, em essência, a maneira com a qual as pessoas são orientadas a pensar. Na nossa sociedade o nome da ideologia implementada pela burguesia é "Neo-liberalismo", qual é uma ideologia voltada a maximação do lucro, pelo capitalista, em prol do empobrecimento, marginalização e afins, das pessoas quais não servem ao capitalista.

O Neo-liberalismo também tem, como objetivo, promover, de maneira praticamente descarada, o fetichismo da mercadoria, ou seja, em promover certas marcas, ou produtos, para que o seu preço (e não seu valor) seja o mais alto possível, para que alguns objetos, ou afins, se tornem "sonhos de consumo" e, assim, levem as pessoas a deseja-los.

Explicadas essas coisas, agora precisamos falar sobre como se dão as relações pessoais. Como já falei antes, o pensamento é póstumo à matéria e a materia, ou a natureza, é, por sua vez, tranformada pelo homem, então o resultado do trabalho do homem vai, em geral, transformar a relação do homem, com o próprio homem, uma vez que a materia da qual o pensamento se baseia se alterou.

Vou dar um exemplo (bem craso e de um produto já feito, porém existe ainda um trabalho e um resultado que altera o estado original das coisas): Uma mulher tem uma filha; essa mulher gosta de usar maquiagens para sair, isso a deixa feliz. Um dia sua filha vê sua mãe se arrumando para sair, sua mãe gasta um tempo se maquiando, escolhendo sua roupa e etc, com tudo pronto, ela se olha no espelho: está feliz. Sua filha, então, assim que sua mãe deixa as maquiagens a seu alcance vai até elas e se maqueia, até que se sente feliz.

A infraestrutra e a super-estrutura influenciam a todos que existem dentro de sua lógica, dentro de seu sistema. Nós, marxistas, ou não, somos todos vítimas do nosso pensamento guia, estejamos nós conscientes dele, ou não. Não existe, dentro da infraestrutra, qualquer pessoa que consiga se livrar 100% do pensamento pelo qual ela foi condicionada a vida toda. A única maneira de se livrar disso é alterando a infraestrutura.

A única maneira, até hoje, que conseguiu efetivamente alterar a infraestrutura foi a socialista cientifica, ou seja, o marxismo. O Marxismo é a única maneira de se livrar do racismo, de se livrar da opressão da mulher, de se livrar da propriedade privada, do neo-liberalismo e todos seus tentáculos.

Se você quiser saber mais, ler mais livros, com mais dados, de diversos autores, sobre o porque de escolher o Marxismo, por que a luta marxista é a única real luta que pode libertar todos e, principalmente, por que somente ao libertar todos, indepente de raça, credo ou sexo, é a única maneira de ser livre, entre no nosso grupo: facebook.com/groups/um.marxista

1 - Karl Marx - "O manifesto do partido comunista" (versão: https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/index.htm)

Texto: Afinal o que é o marxismo

domingo, 15 de outubro de 2017

É o que convém



1 Um carro, com maior equipamento sonoro, passa tocando música, no último volume;

2 Essa música é de um gênero muito popular;

3 Eu só aprecio música erudita, ou sacra.

Julgo poluição sonora, o episódeo com o automóvel.
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4 Os vizinhos gritam e xingam, quando o seu time ganha;

5 Esse time é muito popular no país;

6 Eu mal acompanho futebol. Simpatizo por um time interior, mal tem torcida.

Julgo inconvenientes/ estúpidos, os meus vizinhos, no que diz respeito ao futebol.
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7 Oração da família, antes de fazer a refeição e/ou antes de ir dormir;

8 Essa religião é a maior do ocidente;

9 Eu sou pagão.

Julgo antiéticos, os familiares. Faltam com respeito ao próximo.
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10 Um grupo agride, vocifera, condena, violenta, quando lê/ assiste a algum comentário político-filosófico que não segue sua ideologia;

11 A oposição a esse grupo é muito expressiva, muito antiga e está espalhada mundo afora;

12 Eu odeio política, acho que o mundo seria liberto de grandes males não fossem estas frentes ortodoxas.

Eu morri queimado. Um grupo me executou devido ao julgamento do outro.
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Existem coisas que a mim interessam também. 
Porém, eu me senti "oprimido" no exemplo
Mas nada pode me impedir de ir além.
De vir a ser um "opressor" em qualquer momento. 
Falta-me oportunidades.
O mundo é aquele que, a mim, convém.

Afinal, eu sou o centro do universo, 
O mundo gira em torno de minha cabeça. 
Sou o correto, sou o reverso.
Dos pensamentos tristes, mas das palavras belas.
Cuidemo-nos, pois não haverá espaço para tanta opressão na Terra.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Vamos, vamos, corre!!!!

O expresso, rápido, a jato, instantâneo, agora, na hora, já... São palavras que soam tão bem, não é? Esperar, aguardar, devagar, lento (pejorativamente chamado de lerdo) e calma, já soam incômodo.

Não se tem tempo para cozinhar uma boa comida na panela (já se faz comida em 3 minutos), imagine ESPERAR um grande amor? (pior que há app’s para ACELERAR esse processo rs); o que ESPERAR do próximo, se HOJE, tudo é EXPRESSO, é FUGAZ?

PONTUALIDADE faz bem, é prazeroso. Mas... Para que RELÓGIO, se a pessoa for livre? Um encontro, ATRASO? Compromisso? Cada MINUTO vale ouro, não é? É mais uma questão de respeito ao próximo, para que este não fique ESPERANDO a sua chegada. Mas ao ESPERAR, a pessoa pode fazer, pensar, outras coisas… Por que não?

Estamos inseridos numa sociedade, numa cultura, em que tudo é resolvido pelo dinheiro (isso é mais do que óbvio, sempre foi assim). Realmente, TEMPO é dinheiro. Mas pense naquele que é desprovido dessa gana, que está longe desse grande mal que é o mercado, que exige a moeda, o dinheiro?

Desejo, requer esforço, requer CORRIDA contra o TEMPO. Ninguém deseja alguma coisa para daqui a 5, 17, 32 anos. Não se sabe ESPERAR um almoço (vide fast food, miojo), não se ESPERAM um amor, imagina algo para daqui à dezena de anos? Queremos para AGORA. O quanto antes. O mundo está ACELERADO por demais e tende a piorar.

O TEMPO que NÃO PASSAMOS juntos, é recompensado com alguns tipos de agrados, ou PEQUENOS gestos. Gestos muito RÁPIDOS, EXPRESSOS. Quase não marcam, quase não se ETERNIZAM. São raros…

Eu tenho um sonho: destruir o relógio. O TEMPO é um fenômeno, eu o respeito. O TEMPO É ETERNO. E como dizia o poeta Renato Russo: “O INFINITO é realmente, um dos deuses mais lindos…” Este não é um malfeitor na nossa vida. Claro que não. Mas o RELÓGIO, e a nossa "cultura da PRESSA”, é quem está matando a nós mesmos.

Podemos apontar o dono disso tudo: a indústria e a mídia. O controle sobre nós. Cada TEMPO que possamos dar-lhes ATENÇÃO, é para eles, ótimo. A novela tem HORA certa, o filme, o esporte. Somos dependentes desses HORÁRIOS. Existe hora para ver filme? Existe, de coração, HORA para se ver um programa na TV? Ou existe você? Você é a PRIORIDADE. Você é o valor, e o TEMPO. Você É! Destrua a TV e o relógio, serás feliz.

Ouve-se muito e, se vê também, a frase “faça você mesmo”, “com apenas um toque”, “não é necessário nenhum esforço”, geralmente são produtos ou alguma coisa para ser feita no lar, etc. Você GANHA TEMPO no lar, fica MENOS TEMPO, faz MENOS ESFORÇO em casa, para que, na rua, no comércio, ou no fast food, no shopping você se esqueça que existe RELÓGIO. Com isso, você, inconscientemente, esquece que existe vida, que existe natureza, que existe um mundo natural, não feito por homens, indústria ou TV, lá fora.

O trabalho também APRISIONA-te no TEMPO. No trabalho, o RELÓGIO só gira em favor do patrão. Não há liberdade; não há LIMITES. O TEMPO que ficares na empresa, no escritório, é maravilhoso para quem contabiliza suas cifras em cima de ti. O DEVAGAR, pode ser um grande aliado à PRESSA. É surreal, mas é compreensível. Podes realizar uma produção em 2 SEGUNDOS, mas que seu DIA na firma seja de mais de DOZE HORAS. Portanto, “não tenhas PRESSA! Podeis sair daqui a HORA que quiserdes, mas CORRAM com este trabalho”...

NÃO ESTOU COM PRESSA EM ACABAR ESSE TEXTO. QUANDO EU QUISER, DAREI CONTINUIDADE.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Vamos perguntar à arte?

Uma das coisas que li recentemente e que, mudou minha vida, foi uma coisa muito simples e de poucas palavras: “Só o ser humano produz cultura”. Resumindo ai, bem superficialmente, assim que li a palavra “cultura”, esta, de pronto, me remeteu à arte. Sempre tive em mente, que arte e cultura eram a mesma coisa. Mas há uma diferença grande entre a arte e a cultura. Uma está inserida em outra, de fato. Mas eu gostaria de me limitar, bem mesmo, somente à arte. O meu primeiro questionamento, ou uma forma filosófica de se pensar arte, foi esta:

A arte tem o poder de:
Um: À vida, imprimir a morte;
Dois: Dar à morte, vida.
  1. Um quadro de Cézanne.
1. Alguém pode me dizer se a Monalisa (“Mona Lisa del Giocondo”, obra de Leonardo da Vinci, 1503) está viva naquele quadro? Se sim (quem iria pensar nisso? Mas tudo bem...), ela pensa, ela fala, respira, cria alguma coisa?
2. E as frutas, de Cézanne, na pintura “Still life, Jug and Fruits”, 1893-1894, elas não são tão reais, que queremos pegá-las e comê-las? Com alguns pincéis e poucas tintas, os crânios em “The Three Skulls”, 1900, do mesmo pintor, não são tão reais que amedrontam?

Arte… O que nos enxergamos como arte, afinal?

E o nu, que tem causado asco, recentemente. A nudez que agride e ofende a alguns. Mas nudez é uma forma de expor o corpo humano. Ou melhor, a nudez é nossa primeira natureza. A natureza do nosso físico, a matéria. O que leva à sociedade pensar que o nu é ofensa, ou pornográfico? O que está educando a essa sociedade, quem educa a quem, a ponto desse povo temer a nudez?

Arte… Porque tememos-na tanto?

As “revistas masculinas”, são as mais vendidas das bancas de jornais. Há nudez. Porém há apreciação. “O corpo nu, é belo!” - há quem o diga. Há quem colecione estas revistas. Seria erotismo, pornografia, ou apenas fotografia de um corpo desnudo?
Quem vê esta arte, tem a mesma intenção ou, interação, do artista que tirou tais fotografias e também da pessoa que cedeu seu corpo para tal?

A arte então seria um meio para se ofender, agredir ao próximo? Ou, a arte é como a justiça, cega. E não vê a quem, apenas é?
A arte apenas fica exposta e quem a traduz, quem a percebe e define, são as pessoas? Quais tipos de pessoas?

Quem nunca viu arte, está preparado, vamos assim dizer, para receber as primeiras impressões de uma música barulhenta, um objeto retorcido, ou um quadro surrealista, ou até mesmo um corpo nu, sem expressões?

A arte deve ser controlada, censurada, e ter somente uma intenção? Quem iria definir e controlar sua intenção, e sua exposição?

Seria uma ciência, os filósofos estudiosos no assunto? Ou seria o povo, todo e qualquer cidadão?

De quem é a arte, para quem é a arte?

Caso a população decida julgar o que é arte de fato, esta poderia estar de forma justa, definindo a arte somente, ou os seus traumas, seus pavores, suas afeições, seus preconceitos, seus costumes e suas morais, estariam embutidas nas críticas artísticas?

Qual sociedade estaria olhando para a arte? A dominada ou a dominante (elite)?

O que seria a arte, para uma sociedade cujo o controle é de uma classe que vive no topo do sistema financeiro-econômico? O que é arte, para aqueles que são a base dessa pirâmide, que subsistem nesse sistema?

E também, a posição política influi na arte? Uma pessoa extremamente conservadora, contrária à mudanças, vê uma pintura surrealista, ou ouve uma música contemporânea, da mesma forma que uma pessoa liberal, excêntrica?

Uma vertente política pode se apropriar da arte em si? A arte pertence a um grupo da política, dita de “direita”, ou a arte é da “esquerda”? Se sim, quem faz o que? Quem expõe o que ao público? Qual público? Com intuito apenas político, ou um forma de doutrina?

A arte é gosto?
A arte é apenas um olhar?
Arte é qualquer coisa, um objeto exposto?
Arte é perfeição, uma obra que devemos amar?

Um risco, à lápis, azul, numa folha perfeitamente branca, pode ser considerado arte? E esse risco, multiplicado por mil, numa tela, com outras cores em harmonia, pode-se considerar arte? Por exemplo, Catedral de Rouen, de Claude Monet e outra pintura da mesma catedral. Mas estes exemplos, aos olhos de quem? Da elite, uma classe dominante, ou de um simples cidadão?

Esses olhares dependem da cultura de cada povo, ou a arte é a mesma tanto para um siberiano, quanto para um parisiense? Ou melhor, o que é arte para um siberiano, e o que é arte para um parisiense? Tente visualizar onde vivem, as peculiaridades de cada sociedade, tanto da siberiana, quanto da parisiense. E o que eles produzem, o que vêem e o que ouvem...

E uma música, cuja sinfonia instrumental soa serenamente, é melhor do que uma música eletrófona, quase sem nenhuma pausa perceptível? A música é feita de sons e silêncio, notas músicas com suas devidas alturas e pausas, basicamente. E se uma pessoa qualquer se deparar com 4 minutos e 33 segundos de silêncio, isso poderá ser classificado como música? Sugere-se então que se ouça, ou busque informações sobre a música (sim, uma música), 4’33”, do compositor e maestro, John Cage. A música possui partitura, há  apresentações e houve, pelo autor, a gravação da mesma. Então, a pergunta retorna: silêncio é música? Ou melhor: existe realmente, àquele que possui a faculdade da audição, o silêncio? Por mais que a 4’33” seja executada somente com pausas, ainda assim deixamos de ouvir as coisas ao nosso redor? Esta obra, de John Cage, deve ser considerada arte?
E por falar em música, o instrumento musical, além de produzir sons maravilhosos, (ou não), pode ser considerado, materialmente, uma obra de arte? Um Violino, sem produzir som, em repouso numa prateleira, por exemplo; sua madeira, suas medidas, os cortes, cada detalhe, visualmente é uma obra artística?

Seria obra de arte, um instrumento musical, para quem nunca o tivesse visto antes? Mesmo não sabendo sua utilidade? Se sim, um instrumento musical, que não produz música, pode imprimir arte àquele que o observa?

Retornando à 4’33”, de John Cage, todo o conjunto da obra, todo ambiente, um lindo piano de cauda, traje a rigor, uma sala de espetáculos, e claro, espectadores, mas a produção artística seria apenas o silêncio; um piano lindíssimo, relativamente, um objeto caro, projetado naquele momento para não produzir som nenhum, seria considerado um espetáculo visual, e arte, no que se refere a música?

Uma questão também muito importante, que devemos tratar junto a arte, é sobre alguém que tenha perda severa/ profunda de audição, não consegue ouvir música, obviamente. (Mas não se deve julgar ou muito menos impedir àqueles que possuem surdez de ir a um espetáculo musical, ou um simples show de rock, não é?) Então, como os ouvintes, entendem que o surdo está “ouvindo música”? Geralmente quem está produzindo música, é ouvinte, um tanto óbvio isso. Mas apesar de o surdo não ouvir, eles possuem outros sentidos também. Muitos surdos exprimem o entendimento da música através de luzes rítmicas, ou simplesmente pelo deslocamento do ar, causado pelas caixas de som, ou pelas “peles” dos bumbos, ou instrumentos de percussão qualquer.

A arte é limitada? A arte é apenas para alguns? A arte apenas é “alguma coisa” e, nós, que a percebemos, que a fazemos e, a entendemos, à nossa maneira?

Uma coisa importante e interessante a ser feita, em relação às simples perguntas sobre a arte e demais assuntos que permeia a isso tudo, é, no momento em que se obtém a resposta, pensar também em algo inverso, antagônico, literalmente. A arte não deve ser pensada somente numa direção, ou em favor dos ventos. Não! Ela deve atingir a tudo e a todos, de diversas maneiras. Devemos pensar em arte, mas acima de tudo observar; puramente, “cegamente”, livre de todo preconceitos e pré-julgamentos; não se deixar levar por um belo sentimento, a priori, e nem levar, ainda a priori, nenhuma má impressão. Arte é complexa? Muito mais complexa àquele que a observa, ou o seu observador que é complexo diante de um objeto simples de observação?

Eis a arte… Ela é, e não é ao mesmo tempo. Transcende, transforma, destrói, deforma. Uma coisa se sabe sobre a arte em geral: ela causa. Disso todos temos certeza. A arte existe, ela está ai desde tempos remotos, até hoje. A cada minuto. Arte, seja ela abstrata ou, tão material e real como a nossa própria vida, é, existe. Basta que tenhamos nossos sentidos para percebê-la.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O poder que eu quero

Eu queria poder;
eu queria ao menos querer;
Quando não posso, eu quero,
quando quero, não posso.
O poder, só a um é dado.
E o querer, é inexplicavelmente caro.
Este é o poder/ querer físico, material...
Um ser espiritualizado, nega a isso facilmente.
Poder, querer…
Pensar, fazer…
A tudo, posso.
A tudo, quero.
Finalizar a obra antes do esboço.
Contar todas as estrelas sem sair do zero.
O poder do pensamento.
O querer imediato.
O pensar que sucede um sentimento.
A práxis que transcende o abstrato.
Quero andar para trás, olhando para frente;
dormir em pé, acordar deitado;
tomar banho de Sol e me secar na chuva.
Não só existe o querer, mas também, o poder.
Eu quero tudo,
eu posso tudo:
Fazer das flores, minhas palavras,
espantar todos os males do mundo.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A busca do rigor e o estilo

A busca do rigor e o estilo.

“Os discursos que determinam o estatuto e o objeto das artes não são unânimes nem constantes. Sua segurança enquanto critério de julgamento já pode ser, num primeiro tempo, questionada: eles podem ser contraditórios tanto na atribuição do estatuto da arte quanto na determinação da hierarquia”. (COLI, JORGE. O que é arte. Ed. Brasiliense: Sao Paulo, 1995).
Há de fato, uma noção, em certas obras, seja cinematográfica, seja musical, ou visual, de permanência de estilo, ou padrão e há também uma notória evolução ou, qualquer modificação, no trabalho de algum artista. Cada qual possui suas peculiaridades, seus estilos e, por gosto, tradição ou orgulho, os mantém até o fim. Há outros que naturalmente mudam suas linhas, suas percepções, mas isso não pode ser visto sempre como ruim ou, em contra partida, como algo evolutivo. É uma situação neutra. Alguém que foi se deixando levar pelo tempo, por sua era, ou influência de novos artistas.
Sobre a citação de Jorge Coli, há de se concordar que o julgamento na arte pode ser contraditório e pecaminoso na questão hierárquica. Então a crítica, ou algum critério de julgamento, também deve ponderar ao que é permanente, ou o que veio a ser um ato contínuo, harmonioso, que deu luz à uma grande novidade. Há sempre dois viés que precisam ser analisados com minúcia. É algo um tanto paradoxal, pois a arte se define, digo superficialmente, em manifestação/ expressão da subjetividade humana, ou pode-se dizer, uma atividade realizada de forma consciente, controlada e que seja coerente, racional. Tudo bem que não é qualquer coisa que pode ser tida como arte, mas o que pode ser considerado arte? O belo, o perfeito, o agradável? Por isso esse complexo em dizer que tal obra é melhor que outra, ou mais bonita; que o trabalho de um artista é pobre em detalhes etc. Mas ainda assim belo ou não, não a arte não seria a expressão da cultura, a imaginação humana que ganha forma?
No exemplo da arte cinematográfica, temos filmes de alguns diretores que trazem suas marcas registradas. Jorge Coli cita Alfred Hitchcock. O diretor possui estilos próprios em seus filmes. Elementos que são suficientes que não nos deixa dúvidas sobre seus trabalhos: “esta obra é de Hitchcock”. Enquadramentos, música, atmosfera, etc. O mesmo se dá com outro diretor que, particularmente, aprecio muito: Woody Allen. Seus filmes são carregados de diálogos, muitas críticas, psicanálise e cotidiano; outro ponto que é sobre uma questão mais técnica: há um estilo de filmagem que só ele possui. É sua “identidade visual” (estilo). Sabe-se de cara que o filme é de Woody Allen. Há filmes em preto/branco, outros “carregados” em sépia; os cenários, por ele escolhido (marca registrada), romantizam qualquer situação, além do estilo de comédia que também é de praxe (e, diga-se de passagem, seus filmes ficam melhores à medida que ele envelhece). E o que falar da “fotografia”, ou as cores do cinema de Almodóvar? Todos testes diretores têm seu brilho, seu aspecto, mas nem por isso, um é melhor que o outro. São apenas visões de mundo, do abstrato, ou de uma sociedade, de um indivíduo, de formas diferentes.
Apesar das marcas diversas deixadas por cada diretor, há neles também um amadurecimento, uma evolução, conforme o tempo vai passando. Isso é natural. Todos nós, enchemos-nos de informações. O mundo a cada dia, parece uma máquina de fazer novidades, criar coisas e situações novas. Não há como parar no tempo. Se não pode considerar evolução, pode se dizer que seja uma inspiração, um propósito maior, que tenha levado o artista a experimentar um estilo diferente, que tenham deixado suas “marcas” de lado.
Além da citação no primeiro parágrafo deste texto, há outra importância sobre um trecho de Jorge Coli, na página 24, que é o fato de uma obra ser tida como melhor que a outra, eis: “além disso, a própria idéia de critério aparece como um esquema que perturba nossa aproximação da arte. Sabedores de que Calixto é menor do que Leonardo, dispomo-nos sumariamente a exaltar o segundo e a menosprezar o primeiro”. Diz mais adiante o autor, sobre o discurso da arte crítica, que esta carece objetividade. Com isso a crítica em si, ou até os apreciadores da arte em geral, buscam, frequentemente, por um rigor de estilos. Isso pode engessar a arte, ou a crítica que se faz dela.
Mudando o foco agora para a música, a presença de estilo, ou dessa insistência em alguma peculiaridade, se torna mais fiel. Exemplo, uma banda de rock, ou um trio musical regional, um compositor de samba, costumam manter seus estilos até o fim. A inconfundível guitarra de Carlos Santana, e também de Pepeu Gomes; o acordeão de Luiz Gonzaga, o rei do baião; o violão no samba de Agenor de Oliveira, Cartola. Mas não podemos dizer o mesmo do maestro Villa Lobos, que atravessou períodos diversos do país, inclusive regiões do país, onde a cultura era distinta uma da outra, e escreveu obras desde o modernismo, impressionismo até o popular, chorinho e samba. Desta forma que é dada a existência do estilo.
E por falar em estilo, de onde ele surge? Foi inspirado, ou serviu como inspiração? Pode-se dizer que Villa Lobos, se inspirou em algum compositor clássico, ou sua genialidade (que é fato), nasceu consigo? Luiz Gonzaga e o mestre Cartola, por exemplo, não tinham noção nenhuma de teoria musical, este último, mal sabia afinar seu violão. Foi através de Villa-Lobos que, então, Cartola passou a afinar seu instrumento através de um diapasão. A composição de obras tão lindas, letras tão sublimes e melodias, harmonias tão doces. Como pode, sendo que este homem só tinha concluído a antiga primeira série? E além disso, Cartola não sabia afinar um violão? Não! Ele não sabia. O sr. Aluísio Dias (1911 - 1991), violonista e compositor da velha guarda da Mangueira, cita uma situação entre Cartola e Villa-Lobos, reforçando a falta de conhecimento teórico do artista do morro da Mangueira, em (PAZ, Ermelinda Azevedo. Villa-Lobos e a Música Popular Brasileira. Uma visão sem preconceito. Rio de Janeiro, Arte & Cultura Produções LTDA., 2004. 1ª edição, pág 84):
[...] O maestro aceitava o Cartola como era e admirava muito suas músicas. Ele ouvia o Cartola e dizia: ‘Mas como é que pode, às vezes está tudo errado, mas é tão bonito.
Como Cartola sabia que estava bela, a sua canção? De onde vinha seu estilo? Realmente, há inspiração, há uma série de apanhados de estilos, que podem se mesclar num só. Seria o caso de Cartola, e/ou Luiz Gonzaga?
O estilo, portanto, deve ser algo imutável? Ou mesmo que não se queira, ele se altera naturalmente com as épocas, com as culturas? É algo que se deve considerar.  E é bom lembrar, Jorge Coli, novamente, na página 28, “...a obra de arte não se reduz ao estilo”.
Gostaria de expressar um fato pessoal, e apesar de não ser nada formal, ou profissional, nem de nenhuma excelência, mas na questão da composição (arte escrita), e visual (a pintura, desenho), eu, particularmente, por experiência, não obtive nenhuma influência artística, tanto para escrever, quanto para desenhar. Seria uma influência metassensível, ou metafísica, segundo Platão?
Um profissional, amigo meu, desenhista, disse que minha “técnica”, ou “estilo”, seria a de “desenho acadêmico”. Eu nunca soube o que era este estilo. Há pouco tempo uma amiga pediu sua caricatura, eu não soube fazer, então a desenhei no “meu jeito”, e ela como já tinha noção de desenhos, à mão livre, me disse: “fizeste um desenho artístico. Podes se dedicar ao realismo, terás excelentes resultados”.
Eu possuo um estilo. Isso é fato. Mas será que amanhã, ou depois, conseguirei realizar um estilo diferente de desenho? Com treino, sim. Mas serei influenciado por algum artista já consagrado? E isso, por acaso, reduzirá o meu estilo de fazer arte, ou seja, a influência piorará minhas pinturas? Eu percebi que pude evoluir, na questão estética. Então, uma questão: isso, pode fazer com que minhas obras, humildes desenhos, sejam considerados obras de arte?
Ou, por exemplo, na arte da composição. O que escrevo será que é uma influência, uma cópia de algum autor? Mas como se nunca li nenhum poeta, ou texto lírico? O que classifica o que escrevo como poesia? Enfim, são estilos e análises, discursos que determinam o estatuto e o objeto de arte ou, um critério de julgamento por parte de um especialista, é quem podem definir mais acuradamente.
Há também o senso-comum, que pode aceitar o que é arte ou não, dependendo do impacto que a obra cause. Isso dependerá muito do rigor com o que é medido uma obra de arte e a afeição, ao estilo de cada autor, perante seu trabalho. Arte: expressão de emoções e idéias... À ela, caberá o período, as circunstâncias - presentes em cada cultura -, a questão estética e a sua real intenção de fato. Ela é dual, pode ser e não ser ao mesmo tempo.

Referências bibliográficas:
COLI, JORGE. O que é arte. Sao Paulo, Ed. Brasiliense, 1995. 15ª edição.

PAZ, ERMELINDA AZEVEDO. Villa-Lobos e a Música Popular Brasileira. Uma visão sem preconceito. Rio de Janeiro, Arte & Cultura Produções LTDA., 2004. 1ª edição.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O futebol e nossa "arte"

O futebol em si é uma arte.
Uma partida de futebol é um espetáculo.
Artistas são os jogadores,
ainda a torcida também.
Há performance em campo,
nas arquibancadas há música.
É tudo uma verdadeira exposição artística.

Mas à cada partida um torcedor morre.
Seja assassinado, seja por uma fatalidade qualquer, por descuido dos órgãos competentes.
Perde-se vidas, gera-se ódio
Quando não morre alguém, há agressão física de todo tipo.
Se xinga mais do que se grita “gol”;
se briga, mais do que se comemora;
até na comemoração aparece gente morta.

Há investimentos fortíssimos do governo, da TV e de empresas privadas para que este espetáculo seja cada vez mais belo e atrativo
Isto é arte… Futebol é paixão, é vida! (e morte também).

Eu ia gostar muito de ver o dia que uma ONG, um Movimento, o BrasiL, a população fechasse um estádio. Eu ia começar a entender certas coisas, se a grande maioria protestasse em frente a um estádio logo após uma pessoa ter sido assassinada, sofrido qualquer violência.
Eu ia me dar por satisfeito no dia em que não houvesse mais partidas de futebol justamente por conta da violência animalesca e gratuita que há em todas as partidas, dentro e fora de campo, diga-se de passagem.

EU NÃO VOU NEM COMENTAR DOS UFC's DA VIDA... DESTE TIPO DE A_R_T_E__M_A_R_C_I_A_L. NÃO VOU PERDER MEU TEMPO PENSANDO NESTE TIPO DE ARTE. MAS...

Se uma pessoa nua em uma performance é motivo de estopim para o caos social, ou uma exposição artística, o que dizer do público ou dos verdadeiros “artistas da bola” que se degladiam, se sangram e se matam, na frente de crianças, de pais e mães dentro e fora de estádios de futebol?

“Mas o futebol não promove violência. O futebol é um esporte! Quem comete violência são as pessoas, as torcidas, etc”
Sim!

O mesmo digo sobre uma exposição artística numa galeria, ou uma performance num museu: quem comete o crime, quem vê maldade, quem interpreta e julga conforme seus valores e costumes, é única e exclusivamente o expectador. A arte e o artista, não matam, não cometem crimes. Por exemplo: podemos julgar aquele ator vilão por incitar à violência, ou fazer apologia a algum crime? (o caso de uma novela onde há um traficante e sua mulher). Atores que interpretam, devem então receber julgamento por sua nudez diante das câmeras? Aquela dança sensual que cansamos de assistir aos domingos na TV aberta; "na boquinha da garrafa…", "Pau Que Nasce Torto", "Pimpolho" ... ; e aquela banheira que aparecia muito numa rede de TV paulista, em que "artistas" de sunga e biquínis, tinham de pegar um sabonete numa banheira minúscula cheia d'água? Eles foram censurados por aquilo que fizeram? Pediram a prisão deles? Ninguém nunca pensou em reclamar. Mas por que agora? Por que é que agora tudo é apontado como crime, e este mesmo crime é dado sempre ao mesmo "réu"?

Enfim... Quem não quer morrer, não vá a um estádio de futebol em dias de jogos; quem não quer se chocar, ou se sentir invadido, desrespeitado, que não vá ao Teatro ou ao museu, ou qualquer exposição artística; quem não quer ver putaria disfarçada na TV, com músicas de duplo sentido, com fortes conotações sexuais, eróticas, que vá ouvir rádio de música erudita ou ler um livro sagrado.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Algumas considerações



Não temos identidade Colonizados, nós somos O estado não é laico Incomoda, o diferente, a nudez, o profano... Tudo é dominado pelo arcaico
Querem vestir o nu Querem "clarear" a sociedade Os índios, querem catequizar Querem acabar com a diversidade Os pagãos, querem matar
O sagrado não é um corpo, mesmo que nu O sagrado são: roupas, vestimentas, indumentárias, a batina, o terno, o ouro, a joia, a coroa

O sagrado é o certo, o profano o errado Certo é você se curvar, obedecer Errado é você escolher um lado Um belo mundo onde não se pode viver

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Corrupção Virtual

Era um grupo de pessoas. Na sua maioria adultos. Pessoas formadas, trabalhadoras, bem orientadas e gozando de boa saúde. Todos com suas belas famílias, muitos país e mães de filhos, outros somente filhos e, todos já com responsabilidades perante aos que lhes são próximos e à sociedade. Mas dentro desta sociedade, estas pessoas criaram um grupo. Com a ajuda da tecnologia, da internet e uma ferramenta de comunicação, eles criaram um grupo onde pudessem conversar, ou seja, o lazer e a descontração na palma de suas mãos. Hoje, todos os que possuem um aparelho celular, com internet e um aplicativo para comunicação instalado, estão em algum desses grupos. Com certeza! Para diversas finalidades é até aceitável, e realmente, adianta a vida de qualquer um que precisa se comunicar.
Foi um grupo de estudos. Criado para que todas estas pessoas citadas acima pudessem se expressar, comunicar eventos, palestras, debates e coisas do tipo. Claro, rolava umas piadas, até umas paqueras, papo descontraído, uma animação só, mas tudo focado na ciência ali que os uniam.
Os criadores do grupo, chamados de administradores, convidaram diversas pessoas. Quem estivesse interessado a participar do grupo era só pedir que em minutos já estava inserido. O limite de usuários foi informado: não havia mais como incluir ninguém. 256 pessoas. Diversas cabeças, diversos estilos, todos com um único intuito. A afinidade era a mesma. O grupo tinha um nome bem peculiar e só entrava quem era convidado pelos demais e ainda assim tinha a aprovação da administração.
Os administradores enviaram algumas regras ao grupo, para não perderem o rumo e manterem todos com o mesmo propósito do seu início. Criaram um código de ética e conduta. Normal (apesar de, ainda, nos dias de hoje, século XXI, um grupo de pessoas ter de ser alertado, ser avisado de que haverá banimento, ou “puxões de orelhas” àquele que vier ofender, ou que venha a cometer um ato que possa prejudicar ao próximo, é um tanto surreal. Seria a mesma coisa ter de ficar lembrando a alguém, todo santo dia, que estupro é crime; que é um ato violento, horrível... Mas, enfim… O século se adentra rumo ao infinito, e o ser humano se adentra à regressão). Mas considerando o fato, houve-se entendimento e todos se declararam de acordo. Inclusive os próprios criadores do grupo estão sob este manto justo e igualitário, vale lembrar.
Primeiro dia, um administrador manda uma mensagem a todos: “Favor evitem comentários sobre FUTEBOL, POLÍTICA E RELIGIÃO. Sem ‘putaria’ e mensagem de bom dia” (Realmente essas mensagens de bom dia é um porre!). Nos outros dias, esse aviso rolou novamente na tela de todos os participantes. “Favor evitem futebol, política e religião, sexo…”.
Conversa vai, conversa vem, entra madrugada, amanhece o dia e um desavisado, - ou porque não leu as regras do grupo, ou se esqueceu, ou inocentemente - mandou uma mensagem em uma linda imagem: “Excelente fim de semana a todos. Que Jesus lhes abençoe”. Todos reclamaram, os administradores logo se posicionaram e a situação foi resolvida. O participante se desculpou e prometeu não repetir a atitude. (Tomara que ele tenha aprendido que não era somente para aquele grupo em questão. Que ele entenda que mensagens de bom dia é chato pra cacete e imagens virtuais “pesam”, ocupam lugar no dispositivo, e custam grana, pois muitos utilizam serviços de de tráfico de dados de alguma operadora. Tudo bem, é só não baixar a imagem, sabemos, mas é escroto pra cacete mensagens de “bom dia” em grupos).
Mais uma semana, e um outro desavisado, - ou por ter se esquecido, ou outra coisa qualquer - solta sua mensagem no grupo: “meu time é campeão! Os adversários podem chorar”. Mais uma vez houve uma comoção e até outros mais abusadinhos, responderam, ignorando toda a ética e a regra do grupo: “meu time que é o melhor, sai pra lá”. Houve novo alerta sobre as regras, muitos se indignaram, mas chegaram a um novo consenso e prometeram não mais mandar nada sobre futebol.
Amanhece. Já havia se passado um mês desde a discórdia sobre título do clube de futebol carioca no grupo. Mas uma nova notícia havia caído como uma bomba nos jornais e telejornais do país, na última madrugada. Milhões de reais foram descobertos na casa de um político. A pouca vergonha caiu nas redes sociais de todas as formas. Piadas, revolta, textos imensos… Algum administrador desavisado, ou porque não leu, etc, etc e etc, (mas se foi ele quem criou as regras… [?]) jogou uma imagem no grupo. A imagem era de um político. Mas não a do verdadeiro político que havia guardado milhões de reais debaixo do seu colchão. A imagem era de outro senhor. Só que o haviam associado aos milhões de reais encontrados no apartamento. Não se sabe se por falta de informação, de uma leitura mais acurada, interpretação de texto, óculos, atenção, qualquer coisa… Mas a imagem do político lançada não tinha nada com o outro que foi acusado de sonegar dezenas de milhões de reais.
Voltando ao grupo… Não só a imagem que foi o problema e sim o texto que ela continha. Pois é, o texto “falava de política”.
A imagem lançada no grupo foi a imagem mais comentada e a que mais incitou piadas em toda a história da internet somente dentro daquele grupo. Foi algo assim surreal. Havia pessoas que riam tanto, que a quantidade de letra “k”, em sequência, era tanta que o aplicativo travou. “Kkkk...” seria uma espécie de onomatopeia: o som da gargalhada na internet. Os servidores da empresa que entregava o serviço ao usuário final, queimaram. Com isso começou uma zona. Eram tantos textos falando mal do senhor político da imagem, que a sensação era de que se estava numa guerra entre Iraque x EUA. Mas estranho foi o fato de o verdadeiro político que foi encontrado com o dinheiro ter saído “ileso” dessas revoltas e piadas todas.
A palavra mais comum que rolava na tela do dispositivo era “corrupção”. Nessas horas realmente a sociedade, os trabalhadores, o povo parece estar acima do bem e do mal. Tudo o que ele diz, contra o sistema, é puramente lúcido e altamente plausível. Mas infelizmente este é tomado por uma opinião rasa, sem muito critério e completamente parcial. Pura ilação. E essas pessoas, não diferem de mim, de ti, dos participantes do grupo e também dos administradores.
Mas um dos usuários se pôs contra a opinião de todos. Ele conseguiu enxergar a relação entre a imagem do “político A”, com o outro “político B” dono dos milhões de reais. Ele também lembrou que houve injustiça, que as regras não foram seguidas conforme combinado. Uma vez que RELIGIÃO e FUTEBOL foram logo censurados. Já a conversa sobre POLÍTICA, por sua vez, não foi questionada, lembrando que estava na regra. Mas este usuário foi expulso do grupo.
Há três problemas ai. Um, o fato de terem ignorado a ética para com o assunto política; dois, a não punição para com o autor desta questão. Seria o fato de o assunto “política” ter vindo diretamente de um dos administradores? Ou criaram uma nova regra, liberando o assunto “política” e não repassaram ao grupo?; três, a punição completamente equivocada por parte do administrador e do consentimento dos demais. Enfim, isso é ridículo, pois se trata de um grupo de internet. Pessoas que, apesar de suas qualidades e valores, não estão no controle, no comando de uma nação, ou sequer uma comunidade de fato. É apenas um grupo de internet...
Todos reclamam de corrupção. Todos querem seu fim. Ninguém mais suporta este ato. Isso se deve ao fato de o corrupto, passivo ou ativo, estar mexendo no bolso do cidadão. Sim! Quando o bolso fica mais leve por estes e outros motivos criminosos, a histeria é colossal. Agora, quando o corrupto se torna o justo, o reclamão, o cidadão que não aguenta mais tanta roubalheira vinda do alto escalão, como fica?
Tomemos, por exemplo, este grupo de internet e transferimos-la ao peso de uma nação. Os administradores são os governantes, reis, parlamentares, líderes, capitalistas, seja lá o que vocês tenham em mente sobre quem controla, na verdade, um país. O povo, os súditos, são os demais usuários. Há leis, ou seja, regras impostas já pelos administradores; punições, julgamentos, méritos, eleições e etc. Enfim, tudo conforme o modelo de democracia como a república brasileira.
Este cidadão, agora é um líder. Controla uma nação. Está para consigo o poder. As leis e as ordens vem de seu andar. Agora este cidadão goza de uma cobertura, de luxo e regalias. No seu caso, para sua nação, são apenas três leis simples: Não falar, em público, sobre política, futebol e religião. O que houve durante o seu mandato, como líder da nação, foi uma transgressão às suas leis. Em dois casos sua intervenção foi cirúrgica. No terceiro e último caso, foi totalmente injusto e nitidamente uma falta de controle e critério para com todos.
Há corrupção. Fato! E ainda, a punição foi aplicada de forma incoerente. Pena esta que cabia ao seu próprio líder, pois além de ele ter mandado prender um cidadão (ou no caso virtual, ter excluído o usuário) ele ainda saiu ileso de um crime que ele próprio tinha ciência de que cometera. O que fazer quando o governante de um país transgride a própria lei? Neste caso, seria, a justiça, o que convém ao forte? (Sócrates discorda, em A República, Livro I, de Platão); ou seja, só há justiça, só há consentimento quando ela favorece, ou convém a quem tem poder?
Sem contar a distribuição de cargos (relação dos administradores do grupo), se dá somente àqueles que estão próximos do líder, ou, àquele que convém ao líder tê-lo do seu lado? Como um cidadão comum pode vir a se tornar um líder? Sabemos que há corrupção. Justiça só é feita quando convém ao governador geral desta pequena nação, logo… E aos que ameaçam o cargo, ou a integridade do líder? Por exemplo, houve um questionamento sério, lúcido, embasado, sob provas cabais, de que algo havia sido distorcido da realidade imposta. Só que quem distorceu as regras foi o líder. Pode um cidadão derrubar um líder nesta pequena nação fictícia? Lembrando que a justiça convém ao poderoso…


A corrupção está presente até nos simulacros do dia-dia de cada cidadão, mais simples que ele possa ser. Não precisa nem ser presidente, líder, governar nenhuma nação, comunidade. Basta apenas ter o poder, basta apenas “estar sobre”, que ela acontece. “O que convém” é o que está em pauta. O que é “melhor para” é quem decide o que é certo e errado; mentira ou verdade; criminoso ou inocente. Há corrupção até entre duas pessoas numa disputa de “par ou ímpar”, infelizmente. A desonestidade é um mal atuante, silencioso. Ele cega. Torpe os sentidos. Há aqueles que tem noção e mesmo assim o pratica. É gerado um prazer, uma satisfação tal para cometer esse ato, que não importa quem seja, onde esteja, que este crime, ou seja, a corrupção, tem de ser praticada. Coitada da nação em que os cidadãos reclamam da falta de honestidade, mas quando eles viram as costas são os primeiros a praticá-la, seja contra quem for, do jeito que for e a seu imenso prazer.